Diário de Notícias                                   5 de Dezembro de 2000

 

 

Recordar para que a história se não repita
 

 

 

 


Nesta obra, as especulações ganham a consistência dos factos e os pseudónimos transformam-se em rostos



Lília Bernardes

 
Durante trinta anos, a ARA esteve envolta em mistério, quase lendário, devido ao secretismo da organização. A publicação do livro ARA - Acção Revolucionária Armada. A História Secreta do Braço Armado do PCP, com a assinatura de Raimundo Narciso, homem do Comando Central da ARA (1970-1974), afastado do PCP em 1989, que será lançado hoje, às 18 horas, no Palácio Galveias, pelas Publicações D. Quixote, e com apresentação de Barros Moura, não quebra o encanto do mito mas retira-o, definitivamente, da clandestinidade.

As especulações ganham a consistência dos factos, os pseudónimos transformam-se em rostos, embora alguns continuem por desvendar - um registo de confidencialidade respeitado pelo autor - as ruas passam a ter nome, as noites e os dias a cor de um país amarrado ao silêncio do poder absoluto imposto pela ditadura fascista perdida numa guerra africana sem sentido.

O não conformismo de várias gerações e a coragem nascida em defesa da liberdade, um conceito plural de difícil definição. O livro de Raimundo Narciso é mais do que o relato da história, frio e distante. É uma escrita quente, fílmica, repleta de sentimentos, vivida na primeira pessoa - é a sua visão dos acontecimentos -, partilhada com os camaradas de luta.

O medo de estoirar a vida com uma carga de explosivos na mão ou de ser preso, ficar alucinado pela tortura do sono e perder a resistência. "Traição" é a palavra maldita.

Ouve-se o bater ofegante da adrenalina, as passadas lentas do tempo, o rebentar do trotil, o tiquetaque da bomba-relógio, os sussurros das palavras codificadas, o falar baixo nos encontros de credencial, senha e contra-senha, "a nossa ânsia de correr em frente" porque "os explorados e oprimidos têm urgência", o som cadenciado da velha tipografia clandestina.

Acompanhamos o arrumar das malas feitas à pressa, a corrida pelas casas anónimas, a desconfiança dos olhares demorados, as separações inevitáveis e as cumplicidades no amor. Tropeça-se nas dúvidas e nas reflexões sobre a vida, as ideologias, o partido - "no partido, provavelmente qualquer partido, levantar dúvidas não é o melhor caminho para se cair na graça dos que estão acima" -, a fé inabalável no comunismo religiosamente absorvida pelos anos. Verdes de alguns. A família assente no neo-realismo da companheira, a ternura do reconhecimento, os filhos nascidos na esperança de uma mudança, as alegrias contidas pelo êxito das acções que abalaram o regime, os comunicados oficiais da PIDE e os comunicados clandestinos da ARA, as notícias censuradas, a recusa do terrorismo, a criança-operário morta por acidente. E eles a imaginar o socialismo e o leitor a ser dirigido por uma câmara, ora discreta ora escancarada, que o leva aos anos 60 e 70 de um Portugal em estado de coma. Acordá-lo ao som das armas, com alvos bem definidos, era o objectivo. E isso implicava que alguns "desistissem da vida. Do que ela tinha de bom".

Raimundo Narciso não esquece os protagonistas. Dá-lhes voz e corpo. E o lugar na história. Mesmo quando discorda da linha de pensamento. Afinal, "homens perfeitos não há e, a existirem, admirá-los-íamos mas dificilmente os amaríamos".

 

 

 

   ARA - Acção Revolucionária Armada
   Autor: Raimundo Narciso
   Editora: D. Quixote
   Páginas: 409
   Género: Ensaio
   Preço: 3500$00
   Classificação:
****

 

 

 

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Diário de Notícias                                                                    28 de Novembro de 2000

Sentimentos, medos e luta armada
 




 

 


Raimundo Narciso escreveu um livro sobre o braço armado do PCP. Dedicado aos que lutaram contra o fascismo

Lília Bernardes


Arquivo DN-Leonardo Negrão
ALVO. "A ARA tinha como meta mobilizar os portugueses", diz o autor

 

 


"ARA - Acção Revolucionária Armada. A História Secreta do Braço Armado do PCP" são as memórias de Raimundo Narciso, um operacional que fala desses anos em entrevista ao DN. O livro é dedicado aos "camaradas" e a todos os que, afrontando perseguições, combateram a ditadura fascista. A obra é lançada a 5 de Dezembro, em Lisboa.

Que razões o levaram a escrever este livro?
Queria dar um contributo, mesmo que mínimo, para a história da luta contra a ditadura salazarista. Por isso, o livro conta a história minuciosa das acções armadas. Como foram concebidas. Quando e quem as executou. E como foram preparadas e realizadas. Mas se o objectivo central era este, pretendia também escrever algo que não fosse uma grande maçada ler. Por isso tomei a liberdade de juntar sentimentos. Medos, coragens, raivas, amores, aventuras. Tal como eu as vi.

Receou que a verdade histórica pudesse ser manipulada?
Gostava de dar o meu testemunho, a minha visão das coisas.

Porquê publicar agora?
Tem a ver com a passagem do 30.º aniversário da primeira acção da ARA, a 26 de Outubro de 1970. Mas retoques de última hora, descobrir onde estava toda a gente e perguntar-lhes se concordavam que revelasse isto e aquilo, atrasaram um pouco a saída. É que só muito recentemente me decidi a substituir os pseudónimos pelos nomes verdadeiros das pessoas. Agora disseram-me que não sei quem achava que era uma peça de uma campanha anticomunista e a data tinha sido estudada para calhar com as desavenças partidárias e o Congresso do PCP. Não confirmo nem desminto.

a ARA esteve envolta no mistério. Nem tudo ficou dito, nomeadamente o destino das armas, explosivos e granadas desviados do exército colonial. Ainda é cedo para desvendar essa verdade?


Essa parte da história fica para o 50.º aniversário. Mas suponho que o PCP está, há muito, quanto a esse material de guerra, completamente legal. Aliás nem deixaria o partido sem arrumar a casa, como era curial. Houve até um amigo que, há dez anos, quando abandonei o PCP, num momento de exaltação me disse, julgando que eu ainda tinha as armas da ARA, andam para aí a acusar-te das coisas mais incríveis bem parvo és fazer-lhes o frete de as deitar fora, devias era ir despejar-lhas à porta da Soeiro Pereira Gomes.

Em finais de 1964 parte para Havana para frequentar um curso técnico-militar. Acreditava que o regime poderia cair pelas armas e que o comunismo era a resposta ao fascismo?
A ARA não foi criada para deitar o regime abaixo com as suas armas. Não é que não gostássemos, mas parecia-nos que era tarefa acima das nossas posses. A ARA, mais do que fazer ruir o regime, tinha como meta galvanizar os portugueses e mobilizá-los para a luta. Não nutria a esperança de substituir o fascismo pelo comunismo. Na altura achava isso bom demais para ser possível. Contentava-me com o fim da ditadura, com a democracia, mesmo burguesa, que afinal ainda é a melhor que se conhece apesar de não ser lá muito boa. Se o socialismo viesse na passada, como depois tentámos, em 75, isso seria ouro sobre azul. Felizmente não conseguimos. E assim ao menos estamos todos vivos e em regime democrático.

Das operações da ARA, a que abalou mais o regime foi a sabotagem no hangar da Base Aérea de Tancos, a 8 de Março de 1971, em que foram atingidas 28 aeronaves. Que feed-back recebiam da direcção do PCP?
Os heróis dessa temerária acção são o Ângelo de Sousa, já falecido, o Carlos Coutinho, e o António João Eusébio. Descrevo-a no livro tintim por tintim. Cada uma das acções era anunciada, apoiada e comentada pela rádio clandestina do PCP, a Rádio Portugal Livre, que emitia a partir da Roménia e era controlada por Álvaro Cunhal. O Avante fazia também a promoção de cada acção armada.

"EXIGÍAMOS CORAGEM, FIRMEZA, COMPETÊNCIA"

Que perfil se exigia a um guerrilheiro recrutado pela ARA?
Primeiro, exigíamos coragem, firmeza, disciplina, competência. Comunistas ou compagnons de route. Depois... tínhamos de contentar-nos com o que havia. Houve pessoas que ficaram pelo caminho, por não estarem à altura da situação ou devido a prisões. Chegaram ao fim os melhores ou os que tiveram a sorte de não terem sido presos. Uma vez, aconteceu um entrar na nossa guerra a julgar que éramos do PCP (M-L). Encontrava-se com o Chico Miguel e adorava o "velhinho". Quando um dia ele lhe falou em Moscovo!... É uma história deliciosa!

Dos amigos, há um que se manterá eternamente na sua memória, Francisco Miguel Duarte, conhecido por Chico Miguel, o sapateiro de Baleizão, que era militante desde 1948 e falecido em 1988. Acha que o PCP fez-lhe a homenagem merecida?
Não faço juízos sobre o que o PCP deve ou não fazer para homenagear Francisco Miguel. Fiquei amigo dele apesar da diferença de estilos, de vivências e do modo de olhar a vida. Coragem, firmeza, homem de uma só peça, fé inquebrantável. Era isso. Achava que na fé carregava de mais. No livro, conto coisas familiares a nosso respeito. Quando voltou à clandestinidade, vindo estrangeiro, viveu em minha casa dois meses, enquanto não arranjou casa clandestina. Álvaro Cunhal... Cunhal é que foi pena. Na cerimónia fúnebre do Francisco Miguel não se conteve e pôs-se ali, junto à sepultura, à nossa frente, a dizer que os críticos eram da CIA ou coisa que o valha. Mas já esqueci isso. Aliás nem liguei muito, na altura. Tinha estado tanto tempo na confraria que conhecia, passe a imodéstia, todas as reacções da gerência com um prudente avanço. Aquilo não era sentido. Era para condicionar a opinião dos militantes.

Assistiu à queda do comunismo a leste e às crises cíclicas dentro do PCP. O que é que ficou? Desencanto ou lucidez?
Ficámos a conhecer melhor a realidade. E como afinal ela era tão desagradável isso foi doloroso. Culparam Gorbatchov pelo desastre do Leste. Ele apenas levantou a tampa da panela que ameaçava explodir. Parece que ainda aí andam a discutir o centralismo democrático numa versão que nem os soviéticos usavam há um século! Como é que o país pode ter boa imagem!

 

 

 

A cara da notícia

RAIMUNDO NARCISO


 

Raimundo Pedro Narciso nasceu em 1938, em Torres Vedras. É casado e tem dois filhos. Estudou engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Aderiu ao PCP e andou vários anos na clandestinidade, de 1964 e 1974.

É na clandestinidade que integra a Acção Revolucionária Armada (ARA), pertencendo ao Comando Central de 1970 a 1974. A ARA não terá sido criada para derrubar o regime fascista, mas algumas das suas acções fizeram estrondo, com bombas e sabotagens. A mais espectacular foi a 8 de Março de 1971 com um "ataque" à Base de Tancos.

Foi membro do Comité Central do PCP de 1972 a 1988. Na sua qualidade de lutador antifascista, é medalhado pelo Kremlin em 1965 e vinte anos depois, em Maio de 1985, regressa a Moscovo para mais uma condecoração. Desta vez recebeu-a de Mikhail Gorbachev. "Recebi com gosto as duas condecorações. A primeira por acreditar então que aquilo, depois da desestalinização de Krustchev, ia entrar no bom caminho. A segunda, de Gorbachev porque estava com esperança numa mudança radical."

Em 1989 afasta-se do Partido Comunista e é um dos fundadores da Plataforma de Esquerda, em 1990. É eleito deputado do PS em 1995. Hoje é gestor de empresas.

 

 

 

Nota: a primeira fotografia é de 1995 e a segunda de 1964. Esta foi a fotografia que a PIDE distribuiu pelos postos policiais de todo o país e fez publicar na televisão e nos jornais, em 8 de Abril de 1973, pedindo informações para a sua prisão.

 

 

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