Extractos do livro ARA

 

Capítulo I - A SABOTAGEM DO CUNENE

 

(Início do Livro)

 

 

Mal entrei, António Pedro Ferreira arrancou. Foi já com o carro em andamento que o cumprimentei. Respondeu-me que estava tudo bem e seguiu a bom andamento pela Avenida Elias Garcia como se conhe­cesse o nosso destino e estivesse atrasado. Deixei-o ir. Não estava com pressa e percebi o que ele queria.

– Então para onde vamos? Interrogou-me depois de duas viragens bruscas e galgados três quarteirões.

Estás a ver se não vem ninguém a seguir-nos, disse para comigo, que já lhe conhecia os truques. Perguntei pela Maria José, pelo Pedro, pelo Sérgio, pela Catarina e só depois lhe respondi.

– Vamos a Braço de Prata, mas não há pressa.

Meteu pela Avenida Duque d’Ávila, a caminho da Praça do Chile e da Paiva Couceiro em direcção à Zona Oriental de Lisboa.

Estávamos a dar início à primeira operação da ARA! Dávamos os primeiros passos num terreno virgem para nós, o das acções de guerrilha urbana. Iniciávamos a nossa aprendizagem mas estava-nos vedado come­ter erros pois isso poderia ser fatal.

Atravessávamos Lisboa e Pedro Ferreira opinava sobre o marcelismo. Respondia-lhe aqui e além mas intimamente estava concentrado nas tarefas que tinha pela frente.

– Mudança na continuidade? É um embuste. Um embuste sim senhor! Este Marcelo a mim nunca me enganou – repetia como quem não admite objecções.

– Sempre é melhor que o Salazar ou não?

– Qual melhor qual gaita! – continuava – vê lá se acaba com a guerra colonial! Para já não falar na Censura e nos presos políticos!

- Olha, mudou o nome à PIDE – respondia eu a puxar-lhe pela língua e a pensar no encadeamento de encontros que nos esperava.

– Para enganar o pagode! A PIDE, agora em vez de PIDE chama-se DGS. Olha a mudança!

Atravessámos Sapadores, descemos a Calçada dos Barbadinhos e desaguámos em Santa Apolónia. Agora já estávamos na Rua da Madre de Deus a bordejar a igreja cuja torre nos olhava severa lá do alto.

– Achas que nos abençoa? – perguntei a mudar              

de assunto.

– Quem, o Marcelo Caetano?

– Não, a Madre de Deus – Pedro Ferreira largou uma sonora gargalhada e interrogou-me por sua vez.

– Qual Igreja? A do Cerejeira, amigo do Salazar ou a do João XIII, do «Aggiornamento»?

Tinha encontro marcado para as nove horas, com António João Eusébio e Manuel Policarpo Guerreiro, próximo da Estação de Braço de Prata. Eles sabiam que iam participar numa acção armada mas não mais do que isso.

O sucesso da nossa estreia nas acções armadas estava dependente de uma sequência de actos e encontros de hora certa que envolvia mais quatro operacionais da ARA, e que se prolongaria pela madrugada até às sete da manhã. Tudo tinha de funcionar rigoroso como relógio suíço.

– O Marcelo Caetano…

– Vê lá mas é que carro é esse que vem atrás de nós há imenso tempo.

– Espera aí que já o despisto.

Pedro Ferreira acelerou, virou rapidamente à esquerda numa mano­bra perigosa e depois à direita e o falso perseguidor lá seguiu o seu destino sem nos importunar mais.

Os dois últimos dias tinham sido para mim de grande tensão e nervosismo por causa de alterações de última hora que foi necessário fazer ao plano. Mas agora, ao entrar em acção, tal como me sucedia quando começava um exame, o nervoso dava lugar a um estado de alma de paz comigo e com o mundo.

– Olha mas é para aquilo! – exclamou sem pré-aviso o Pedro, quando já nos aproximávamos da estação.

– Andamos a tratar de coisas sérias ou andamos a olhar para as miúdas! – repreendi eu, enquanto me apressava a olhar.

Cinco minutos antes da hora deixei o carro e recomendei ao Ferreira que ficasse ali estacionado. Não queria que andasse às voltinhas e, mesmo sem querer, acabasse por ver os outros camaradas ou ser visto por eles.

Aproximei-me do local do encontro. Policarpo Guerreiro devia estar a dizer qualquer coisa importante porque o Eusébio escutava-o de pescoço esticado.

 

 

Carlos Coutinho

São coisas distintas – o Carlos Coutinho interrogava-se e respondia num desamparo interior que o mortificava – coisas distintas mas que às vezes se cruzam, como agora!

Em casa, após um jantar rápido, a Antonieta preparou o café. Apagou a luz do tecto e deixou o quarto-sala na penumbra do candeeiro de secretária. Ligou o rádio. Lisboa 2, com música clássica, como o Carlos gostava, baixinho. Compôs ao espelho a madeixa de cabelo a cair-lhe sobre a face levemente rosada e sentou-se no sofá de veludo verde escuro, uma compra em segunda mão de que se orgulhava. Decidiu-se a surpreender assim, com o robe entreaberto, o companheiro que se demorava na cozinha a meditar sabe-se lá em quê. Na sua frente, a meio da parede branca, a Guernica, um quadro obrigatório em quarto de estudante antifascista. Dificilmente uma obra de arte poderia dar testemunho mais vivo dos horrores da guerra do que a Guernica. Instintiva­mente afastou o olhar. Aquele quadro, não estava bem ali, ao menos agora, mesmo em frente do sofá.

– Anda beber o café! – chamou ela o absorto companheiro.

Carlos juntou-se-lhe ainda pensativo. Bebeu a xícara de café em silêncio. Golo a golo. E decidiu que não cometeria nenhuma infracção às regras conspirativas se dissesse à Antonieta que aquele era um dia muito especial. Não lhe diria exactamente o que iria fazer nem qual era o alvo da primeira acção da ARA. Carlos acendeu um cigarro e disse com um ar que pretendia desdramatizado que ia naquela noite fazer parte dum comando para uma operação revolucionária. Que havia alguns riscos mas pequenos e de nenhuma importância.

Antonieta não entendeu o que ouvia.

– O quê? – Interrogou incrédula e já assustada.

Carlos explicou que não era nada, não era nada assim tão grave, nem valia a pena ter falado nisso.

Era a última coisa que Antonieta esperava ouvir naquele momento. Tinha julgado que a falta de reacção do companheiro à sua bem estudada e sedutora pose não passava de disfarce e afinal, afinal… nem queria acreditar. Ficou de repente lívida e estranha na sua seminudez.

Os seus projectos para aquela noite «tão bonita» acabavam de ir por água abaixo. Compôs o robe, fitou muito o Carlos, mas...

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Coutinho estava no local do encontro à hora combinada, numa rua de escasso movimento no Bairro da Encarnação. Procurei ler-lhe no rosto o estado de espírito. Pareceu-me seguro de si e não tinha intenção nenhuma de lhe perguntar se estava com medo. Confiava no Carlos talvez por ele ter levantado muitas dúvidas quando lhe expus o plano da operação. Ainda tinha bem presente como nos conhecêramos e as discussões que tivemos. Mas exactamente o querer discutir tudo muito bem até estar verdadeiramente convencido deu-me confiança. No partido, provavelmente em qualquer partido, levantar muitas dúvidas não é o melhor caminho para....

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Em seguida Pedro Ferreira levou-me ao encontro com Gabriel Pedro, na Rua Fernando Palha, bem perto do verdadeiro ponto de partida da nossa operação, a doca do Poço do Bispo. Eram dez e vinte da noite.

A Gabriel Pedro cabia o mais importante papel desta operação. Roubar um barco a remos que ele previamente escolhera na doca do Poço do Bispo e, depois de nele entrar o Carlos Coutinho com as bombas, conduzi-lo Tejo abaixo, até ao paquete Vera Cruz o navio a sabo­tar, a dez quilóme­tros de distância.

Durante alguns dias Gabriel Pedro observou a doca do Poço do Bispo e reparou que aquele barco ficava no mesmo local todas as noites. Pode muito bem ser o nosso barco! – concluiu – e assim de uma assentada transformou um anónimo e resignado barquito a remos da degradada e proletária zona Oriental de Lisboa num herói de filme de aventuras e criou-me um grande sarilho como depois explicarei.

 

Mal nos encontrámos fizemos uma breve recapitulação das tarefas de cada um, por fim perguntou-me o que é que eu achava. Ia tudo correr bem? Não esperou por resposta. Sabia que não havia. Começou a andar para a doca e disse qualquer coisa que já não entendi. Entrámos na Praçeta David Leandro da Silva, mais animada do que a rua escura donde vínhamos e virámos logo para a doca, pela Rua do Amorim. São uns cem metros de rua, àquela hora sem ninguém. À nossa direita, imponentes, as paredes laterais dos armazéns de vinho da socie­dade Abel Pereira da Fonseca. À esquerda um muro alto e velho. À frente, o Tejo e a silhueta vaga e escura de alguns barcos maiores. Acelerei o passo, adiantando-me, como combinado, para tomar posição bem perto da amurada.

 

 

 

A captura do barco a remos

 

Poucos metros atrás de mim Gabriel Pedro entrou na doca, dirigiu-se à rampa que desce para a água, e sem uma hesitação saltou para o barco a remos previamente escolhido. Em pé, com um remo nas mãos, em­purrou ora um, ora outro, até vencer o emaranhado de barcos que dormiam ali, no interior da doca do Poço do Bispo. Depois, já com mais água, sentou-se, remou convictamente e saiu ao rio num ápice. Eu estava à beira do cais e segurava, no bolso, dedo no gatilho, uma pistola de guerra, uma Walther de nove milímetros, para o proteger de qualquer contratempo. Do dono do barco, de um pescador que soubesse a quem o barco pertencia, de um guarda fiscal…

O Gabriel Pedro sabia que chegava ali pegava no barco sem cerimónia e desandava como se o barco fosse dele e toda a gente o soubesse. Eu, pelo contrário, sem experiência de mar, achava a operação arriscada, com alguém a aparecer de súbito, a atravessar-se no caminho e a dizer: que é lá isso? Quem o autorizou a tocar no barco? E daí seguir-se uma confusão que acabaria connosco a arranjar um bom pretexto para fugir se um guarda não chegasse antes e acabasse por nos obrigar a andar aos tiros.

Entrei na doca antes do Gabriel Pedro para que, quem estivesse e visse, não nos associasse. Coloquei-me numa posição que me pareceu a melhor para o defender. Reparei logo num guarda-fiscal demasiado próximo a atrasar ou mesmo a estragar-nos o plano. Logo hoje! Nunca encontráramos nenhum durante os reconhecimentos! Não é então que Gabriel Pedro entra por ali dentro, desce a rampa que conduz à água e salta de barco em barco até chegar ao nosso – já o considerávamos nosso! – de navalhinha na mão e zás, corta dum só golpe a corda que prendia o barco a uma corrente do cais e aí vai ele! Fiquei sem pinga de sangue. Primeiro achei que não era necessário avisá-lo da presença do guarda-fiscal porque ele estava bem à vista. Depois com um olho nele outro no guarda fico sem tempo para fazer seja o que for. O homem não está bom da cabeça! – desabafo comigo – ao vê-lo ir para o barco como se o guarda ali não estivesse. Por fim não sabendo de que me admirar mais, se do atrevimento do Gabriel Pedro se do desinteresse do guarda, achei melhor raspar-me dali. Parecia um filme. Foi com grande alívio que saí da doca. Receava tanto aquela operação do barco!

Gabriel, saiu ao rio e dirigiu-se não para Sul para o seu objectivo mas para Norte porque....

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CAPÍTULO II – PASSAR À CLANDESTINIDADE

 

 

Junho de 1964

 

Ia já a sair quando descobri lá ao fundo, junto à janela, uma mesa livre. No caminho cumprimentei o empregado com um boa noite desa­tento. Alto, magro, o senhor Teixeira andava perto dos sessenta. Usava a farda preta, calça e casaco com bandas de cetim, que vestia os empregados de mesa do café Pão d’Açúcar. Se não fosse a toalha de linho a alvejar no braço com que segurava a bandeja teria mais aspecto de gato-­pingado em cerimónia fúnebre do que de empregado de café selecto que o Pão d’Açúcar pretendia ser. Sentei-me. O senhor Teixeira, regula­mentar, hierático, sem conversas metediças, como deve ser, trouxe-me o café. Nem lhe tinha feito sinal, tal eu estava! Mexi lentamente uma colher de açúcar que tirei do açucareiro metálico e bebi, bem quente, a compasso, a estimulante bica. Quem me espiasse facilmente concluiria estar eu muito longe dali mas não podia adivinhar o que se passava. Até a mim me custava a acreditar!…Como pudera eu fazer aquilo? Acabara de mudar a minha vida. Porque era outra vida, diferente, que agora tinha, para viver. Mas estava arrependido? Não. Não estava. Voltaria à reunião, que terminara há pouco, se isso fosse necessário, para repetir as palavras decisivas. E, no entanto… ainda não conseguia aceitar que

já estivesse do outro lado da minha decisão. Como pudera dizer aquelas quatro breves e definitivas palavras: Sim, passo à clandestinidade! Disse-as. Simplesmente. Como quem diz qualquer coisa que é necessário dizer. Na realidade era uma decisão amadurecida. Construída de pequenas decisões, tomadas dia após dia, durante mais de um ano. Tudo o que fiz ao longo de quase dois anos eu sabia, lá bem no fundo, que iam dar a este precipício. Que me obrigava a saltar no vazio ou a recuar. E não estava eu decidido a seguir em frente? Não estava, no íntimo, feliz, em paz comigo mesmo por ter decidido dedicar-me à luta contra a ditadura fascista e contra a guerra colonial? Mas não podia deixar de me sentir, ao mesmo tempo, estilhaçado por dentro. Não conseguia evitar esta ago­nia de quem abdica, instantaneamente, de tudo o que tinha projectado ao longo da vida. Da família. Dos amigos. Quiçá da namorada. Do curso. Da actividade cultural e política da associação de estudantes. Dos seus convívios. Do cineclube. Das tertúlias nas casas dos amigos. Das nossas conspirações políticas de café que se prolongavam por bares até de ma­drugada. E então agora que vivíamos a revolução dos costu­mes e já quase todos, rapazes e raparigas, tínhamos vencido a última barreira ao amor, o preconceito da virgindade feminina.

Clandestinidade. Era quase desistir da vida. Do que ela tinha de bom.

A minha vida passada e o que adivinhava da minha vida futura perpassava ante os meus olhos à mistura com pessoas que entravam, se sentavam, bebiam café, falavam baixo e o senhor Teixeira que voejava silencioso entre elas e o balcão, de bandeja ora pendente ora levantada acima das nossas cabeças.

Revia, as minhas razões para tal passo. Refazia o caminho que me trouxera até aqui para me certificar mais uma vez das boas razões que tinha. Sabia que o inventário ia confirmar a decisão porque esta não dependia apenas de bons argumentos racionais. O coração e a vontade tem nisto um grande papel!

– Queria falar contigo, a sós, no fim da reunião – disse-me, num à parte, Rogério de Carvalho sem que os outros camaradas ouvissem.

No fim da reunião, ao contrário das outras vezes, não foi o primei­ro a sair como mandam as regras conspirativas. Ficou ainda para falar comigo a sós.

– O partido queria fazer-te uma proposta que exige uma decisão muito séria sobre o teu futuro – disse-me o Rogério depois de se sentar de novo e me pedir para fazer o mesmo. Demorou-se em importan­tíssimas razões que justificavam e exigiam a minha passagem à clandestinidade. Não me queria dizer qual o objectivo antes de eu lhe dar o sim mas eu já adivinhava.

– É da maior importância para o nosso partido e o nosso povo que passes à clandestinidade.

Como não estava certo da minha resposta preparava-se para uma longa prelecção, recheada de irrecusáveis razões que me convencessem. Antes que o Rogério se comprometesse com mais afirmações do estilo a enorme importância para o nosso Povo e tal, atalhei a conversa e perguntei-lhe se era finalmente para iniciar a luta armada.

Rogério de Carvalho não disse sim nem não. Queria que aceitasse sem saber para quê. Segundo ele e a doutrina partidária o bom militante é o que se coloca incondicionalmente ao serviço do partido e obviamente sob a orientação e as ordens dos chefes. Face à minha insis­tência em saber para que era tão importante passar à clandestinidade e com receio de levar uma resposta negativa o Rogério explicou que era para se criar a organização para as acções especiais e se dar início às acções armadas.

– Sim. Passo à clandestinidade.

O Rogério ficou visivelmente aliviado e deu mais algumas explica­ções que correspondiam afinal ao que muitas vezes eu e outros defen­díamos e ele próprio, sem o explicitar, apoiava.

– A direcção principal é lutar contra a guerra colonial, o aparelho repressivo e o imperialismo. A organização tem de ser ultra-secreta como ultra-secreta tem de ser a identidade de quem a ela pertencer.

Há mais de dois anos que discutíamos na organização do PCP as acções especiais. Evitávamos chamar-lhes acções armadas ou luta armada porque sabíamos que esta forma de luta só com reticências ia vencendo na direcção do partido. Mas ultimamente a receptividade de cima era maior e discutíamos acaloradamente a necessidade de passar à acção. Por isso não faria sentido recusar-me agora a passar à clandestinidade.

Nas discussões fora do organismo, entre colegas da Universidade que sabia serem militantes ou pelo menos simpatizantes do partido, também nos últimos tempos as conversas políticas acabavam muitas vezes na defesa das acções armadas e da radicalização da luta contra a ditadura. O ambiente entre os estudantes envolvidos no movimento académico contra o regime vinha-se radicalizando. Entre alguns grupos de uma forma quase delirante, diga-se em abono da verdade. O que me parecia é que os que mais gritavam por armas não seriam os mais dispostos a correrem o risco de as usarem.

 

Desde 1962 que a luta contra a ditadura se vinha radicalizando acele­radamente. Provam-no em particular as grandes lutas dos assalariados agrícolas no Alentejo e Ribatejo que culminaram com a conquista da redução da jornada de trabalho a oito horas em vez de sol a sol, e a crise académica que conduziu à greve geral da Universidade. Junto da direcção do PCP cresciam as pressões para a luta armada. Pressões exteriores decorrentes do ambiente político e pressões da própria organização.

Em 1964 Álvaro Cunhal mostrou-se favorável às «acções especiais» no contexto da «luta de massas» e empenhou-se, ainda que de forma cautelosa, na criação da estrutura que as pudessem desencadear sem envolver directamente as organizações do PCP. Como explicou no Rumo à Vitória, Cunhal considerava que o levantamento geral da popu­lação, na sequência de um crescendo de lutas reivindicativas, manifesta­ções e greves que deveria arrastar consigo uma parte das Forças Armadas, constituía a espinha dorsal da orientação do partido para o derrubamento do regime.

O relativo sossego em que o Café àquela hora caiu convidava à meditação. Não deveria passar à clandestinidade só depois de fazer os exames? Tenho as cadeiras praticamente preparadas. Talvez ainda tenha tempo! O Rogério de Carvalho afinal também não foi muito concreto quanto à data. Já no fim, o Rogério ainda me disse que para a clandestinidade, levasse só uma mala.

– Só a roupa necessária e um livro ou outro. Coisa leve e que se transporte facilmente.

Tinha pensado comprar uma mala grande, bem grande… Vão-me faltar imensas coisas!

A clientela diminuía. Saiu o casalinho do costume e na relva, que sobe até ao Instituto Superior Técnico juntou-se um grupo de rapazolas a jogar a bola com grande alarido até que a polícia chegue.

Examinava males sociais, lembrava casos, buscava antecedentes que explicassem o meu estado de rebeldia e me punham comunista.

Lisboa ampliou sinais, acelerou convicções. A associação de estudantes era uma verdadeira escola de política e de luta contra a ditadura.

A Associação do IST comparada com a Escola Secundária de Torres Vedras, onde estivera do terceiro ao sétimo ano de liceu, parecia-me um mundo novo e exaltante. Tinha assembleias, discussões, votos, as reuniões da secção cultural, exposições para organizar, como aquela, de Gravura, a primeira da Cooperativa dos Gravadores de Portugal onde Júlio Pomar ainda não era o artista famoso que depois veio a ser.

A associação do Técnico estava envolvida na luta contra o célebre decreto 40.900 que mobilizou de tal modo os estudantes universitários contra ele que a ditadura parou para medir o que fazer. Fomos em manifestação até à Assembleia Nacional. Ir em manifestação a S. Bento não é como agora. Era um desafio arriscado. E tinha, mais emocionante ainda, a Comissão Cívica Eleitoral, que se constituía em véspera de eleições falsas, na sede da Seara Nova e nos oferecia emocionantes reuniões mais ou menos secretas. Quem me aliciou para elas foi a Helena Pato. Fiquei-lhe sempre grato por isso.

O que mais me atingia na grande cidade, nem era o abismo entre o luxo dos Estoris, Lapas e Restelos, e a pobreza das Madragoas, Moura­rias e Alfamas realidades que mal conhecia directamente. O que não se conhece não se ama nem se odeia. Pelo menos de forma tão intensa como o que passa por nós. E o que passava por mim era a arrogância do poder político, contra os estudantes, contra a liberdade e as regras democráticas. Poder político prepotente, afrontoso, sempre do lado dos poderosos e, pior ainda, quase sempre do lado dos sem razão.

Sofríamos a Censura! E a impossibilidade de se dizer o que se pensava, de se defender os ofendidos e espezinhados!

 

O abuso, a impunidade e o cinismo de governantes e pides tomava-os para mim, que não era seu alvo directo, como um desafio e alimentavam a minha revolta.

Ali na mesa do café Pão de Açúcar pensava, que tudo isto era comigo, nalguma quota parte. Não me podia pôr de fora. Como cidadão. Pois então teriam que contar comigo também! Achei que era um dever.

 

– Podes contar comigo – disse com convicção ao Rogério de Carvalho.

Percebi que ele não ficou muito seguro da minha resposta mas fingia que não tinha a menor dúvida. Por isso foi conversando melhor comigo.

Por esta altura, só ali à minha volta, vários colegas da universidade de Lisboa, sem que eu o soubesse tomaram a mesma decisão de passar à clandestinidade. Não combinámos. Nem sabíamos, uns dos outros. Cada um de nós só podia resolver isso consigo próprio. Cada qual com as suas razões. Aproveitando as oportunidades que se lhes oferecia. Vencendo os obstáculos interiores, por vezes com um esforço superior a si próprios. Foi o José Bernardino, o Armando Myre Dores, o Albano Nunes, o Álvaro Mateus, o Jorge, o Santos Marques e outros. Parecia-nos a todos que era o melhor caminho para acabar com a ditadura, com a guerra colonial e também, mais tarde, para construir o socialismo. Era o caminho certo para uma sociedade mais justa, mais rica, mais livre, mais democrática. No partido ensinavam-nos que a ditadura do proletariado, necessária para tais prodígios, sendo ditadura era, no entanto, uma democracia. Uma democracia mais democrática que a mais democrática das democracias burguesas. E muitos de nós aceitáva­mos, com a mesma fé com que outros aceitam os milagres, necessitados que estávamos de um qualquer bom instrumento para com urgência deitar abaixo o nosso fascismo suis generis e se possível alcançar o céu.

Se o caminho que percorremos ajudou a pôr fim à ditadura e às guerras coloniais então atingimos importantes objectivos. O Socialismo, o Homem Novo e outras quimeras não eram metas a que aquele cami­nho conduzisse.

Vinte anos depois, quando Gorbatchov ainda crente na possibilidade de regenerar o socialismo real, introduziu, com a perestroica e a glasnost, o bisturi no corpo afectado, é que, para sua surpresa e de todo o mundo, se viu que a gangrena era total.

Nessa altura, no PCP, perante a evidência dos factos, muitos dos seus militantes, acharam que não podiam, sem abdicar completamente dos motivos que os tinham levado até ali, participar por mais tempo na farsa da direcção do PCP que não condenava a gangrena mas o bisturi!

Em países diferentes, em sociedades diferentes, em épocas diferentes, em 1917 na Rússia, em 1945 nos países da Europa de Leste, em 1950 na China, em 1960 em Cuba, homens diferentes guiando-se pela mesma doutrina chegaram aos mesmos resultados.

A lógica levaria a procurar o que haveria de comum em situações, épocas, sociedades e homens tão diferentes para determinar a causa de resultados comuns.

E de comum havia a teoria e a prática do «socialismo real» e… o desastre.

 

Não apareceu nenhum dos meus amigos frequentadores do Pão. Era melhor assim. O que me apetecia mesmo era estar ali, só, a ruminar tudo o que me acabara de suceder. Lá estava, à frente, aquele casal esquisito. Sempre muito calado. A ouvir as conversas é o que era. Eram informadores da PIDE. Para nós isso estava claro como água. Às vezes, quando estávamos muitos, fazíamos conversas provocadoras mas eles não tugiam nem mugiam. Armados em sonsos, os pides! Era o que todos pensávamos e foi com grande espanto que ficámos a saber, depois da revolução que não passavam de pacíficos e tímidos cidadãos e que informador da PIDE era um outro casal. Nunca tal nos tinha passado pela cabeça. Pessoas simpáticas que até metiam conversa connosco se a ocasião o proporcionava!

Olhava para a rua e via através da montra a noite a crescer. Talvez já fosse tarde. No passeio rareavam os vultos. Por vezes as pessoas vinham tão rentes ao vidro que parecia virem chocar com as mesas, cá dentro, arrimadas à montra.

 

Rogério de Carvalho conversou ainda longamente comigo. Sobre a clandestinidade. Pelo que dizia, a vida na clandestinidade era mais cor-­de-rosa do que preta. Mas sobre isso não tinha grandes ilusões. Já conhe­cia algumas histórias de clandestinos e o que sobressaía eram privações e dificuldades, prisões e torturas.

– Não podes estar com a família, nem visitá-la. Nunca mais! Nem com os amigos. Pois por aí é que a PIDE começa à tua procura. Também não podes voltar a frequentar os lugares habituais. Ruas, jardins, cafés. Muito menos ir ao cinema ou a espectáculos. Nem andar por aí na rua a passear. Se a perseguição policial aumenta só podes sair de casa à noite. E mudar de casa com frequência. Por vezes é preciso largar tudo e fugir de casa de mãos a abanar.

Foi esta a primeira explicação da clandestinidade que me deu já lá vão uns anos, o primeiro clandestino que conheci. Um jovem de vinte e três anos, loiro, com um ar muito ladino, só entusiasmos, quando eu, estreante no partido, o interroguei ainda a milhas da clandestinidade.  

Percebia que Rogério de Carvalho se queria certificar da firmeza da minha resposta e de que eu não lhe faltaria ao próximo encontro como já lhe sucedera com outras tentativas de recrutamento. O caso não era para menos porque dois anos antes recusei terminantemente o mesmo convite. Na altura a proposta pareceu-me tola. Descontando mais de um ano em que estive desligado tinha na altura meia dúzia de meses de militância efectiva no partido. Sabia lá o que era isso de clandestinidade! Sabia que não queria.

Estava então a tirar o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, quando me vieram com a conversa de passar à clandestini­dade. Uma conversa de loucos. Loucos varridos. Foi o que pensei e disse na própria cara do camarada. E não pensem que era um camarada qualquer. Era o Rogério de Carvalho um camarada funcionário e da direcção! Encontro com um funcionário, para um militante que está a dar os primeiros passos, como eu, era obra! Ainda por cima um funcionário da direcção do partido! A minha expectativa era enorme e para não faltar à verdade, no início da conversa, atendendo à diferença das responsabilidades e dos saberes, senti-me cá muito em baixo. Para melhor se entender a situação direi que era mais ou menos como se um jovem recém ingressado numa organização católica, como a JUC ou a JOC, crente em Deus e de fé em expansão, fosse levado a conversar com o bispo e este em vez de lhe iluminar o espírito mostrando-lhe uma nesga do céu, o tentasse convencer, de chofre, a abraçar o sacerdócio, sem querer saber se o iniciado tem ou não vocação e está disposto a esquecer a namorada, os seus sonhados projectos de vida, a esquecer a VIDA!

Talvez porque o tratava por tu ganhei coragem para dizer ao bispo, ao dirigente do PCP, ao Rogério, que a proposta não tinha pés nem cabeça. No fundo estava indignado. Achava que a proposta era precipi­tada. Em política de quadros é o que se podia classificar de proposta aventureira. Mas nessa altura eu ainda não sabia usar o palavrório do jargão comunista. Estava zangado e mais zangado fiquei nos dias seguintes quando meditava na situação. Não gostava de recusar uma proposta que viesse da direcção. Achava que um comunista, nunca devia recusar uma proposta que viesse da direcção. O que equivale a pensar que da direcção nunca surgiriam solicitações ou ideias que não viessem iluminadas com a força da razão, do óbvio e que não suscitassem de imediato a adesão entusiástica dos militantes de base. Mas afinal não era assim!? Sabe-se que não há razão capaz de vencer a fé e por isso me surpreendi a pensar se na realidade não podia, ou deveria, dar outra resposta. Provavelmente com os operários é diferente… pensei.

Em resumo não queria passar à clandestinidade por isso considerei ter toda a razão.

Tinha os meus projectos. Tirava o curso de engenharia electrotécnica mas o meu objectivo secreto era a investigação nuclear! O mundo das partículas fascinava-me. Perceber o que é a matéria. Na sua insondável essência. E não apenas, no sentido filosófico. Não apenas os conceitos do grego Platão, de Bacon, do bispo Berkeley, de Kant, Hegel ou Marx. Mas, em especial, entender como são os tijolos da realidade material.

Para dizer a verdade interessava-me então muito mais por estas coisas do que pela lei do valor, pela mais-valia, pelas virtudes da aliança operário-camponesa. Pela excelência do centralismo democrático, pela regra de oiro da maioria operária nos Comités Centrais e nos comités de toda a ordem. Interessava-me pouco pela superioridade moral dos comunistas e pelas futuras Paredes de Vidro. Além do mais sentia-me muito bem no Instituto Superior Técnico com a sua Associação de Estudantes para esgrimir, em acaloradas assembleias, contra todos os que não tinham a nossa pouco amadurecida opinião e passavam a ser uns detestáveis reaccionários. E além disso tinha as minhas ligações, da passagem anterior por lá, à vetusta Faculdade de Ciências, com o belo Jardim Botânico e em contraste com o Técnico, com um número quase infindável de raparigas.

Só mesmo quem não me conhecesse é que poderia vir com aquela ideia bizarra de me propor PASSAR À CLANDESTINIDADE!

Como conciliar a clandestinidade, uma vida de cilícios e clausuras, com a excitante vida de estudante universitário de Lisboa, naqueles loucos anos sessenta? Clandestinidade? Que loucura!

Agora, a situação era diferente. Desenvolvera entretanto uma actividade política regular e empenhada, assumira responsabilidades, primeiro no sector estudantil universitário, depois em organizações unitárias com africanos das colónias, angolanos, guineenses, moçambicanos, com grupos católicos antifascistas, no sector militar, nas Juntas de Acção Patriótica.

Sem dúvida que a minha revolta contra o fascismo era agora mais fundamentada, mais consciente e muito determinada. Isso não atenuava, no entanto, o carácter doloroso e até, paradoxalmente, surpreendente da minha decisão, afinal tão amadurecida. Tal é a diferença entre o acto de avaliação racional e o acto volitivo!

Ah, então temos a luta armada! Pensava entusiasmado, já quase sem o ouvir, enquanto o Rogério de Carvalho ia desfiando suspicazes razões sobre a necessidade da......

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CAPÍTULO V – A SABOTAGEM DA BASE AÉREA DE TANCOS

                

 

No interior do pavilhão o escuro é total. Os helicópteros e os aviões enchem completamente o hangar. O Ângelo de Sousa e o Carlos Couti­nho acenderam lanternas minúsculas que mostram mal onde meter os pés e levantam sombras no meio da escuridão. Mesmo com as lanternas acesas pouco vêem. As lanternas são muito pequenas e ainda têm um cartão à volta da lâmpada para limitar a luz. Apesar de todas as cautelas o Carlos deu outro pontapé nos ferros espalhadas pelo chão. Dois helicópteros estão desmontados e as peças são uma verdadeira armadilha para quem não pode dispensar a cumplicidade do silêncio.

– Vê lá onde pões os pés! – gritou-lhe o Ângelo em surdina – ou queres acordar o quartel todo!

Do exterior a reacção foi o silêncio. O Coutinho encolheu os ombros e desculpou-se. Que o sentinela estava muito longe e não se ouvia nada.

Lá fora o António João Eusébio ouvia. Ouvia e arrepiava-se.

– Fartaram-se de fazer barulho – queixava-se ele, muito tempo depois, recordando aqueles momentos de uma ansiosa espera que parecia não ter fim.

 

É quase uma da madrugada do dia oito de Março de 1971. O Carlos Coutinho e o Ângelo de Sousa estão na Base Aérea 3, em Tancos, no interior do hangar onde desde há alguns dias estaciona quase toda a frota de helicópteros e aviões da base. Estão lá dentro, ao todo, vinte e oito aeronaves.

A BA 3 é a unidade de treino dos pilotos para a guerra colonial. Como o hangar número um está em reparação o comando da base decidiu guardar todas as aeronaves no outro hangar apesar de ficarem excessivamente amontoadas.

Ângelo, que usava os pseudónimos de Miguel e de Tavares, está a cumprir o serviço militar obrigatório na Força Aérea, precisamente na base de Tancos. Tem 23 anos, é cabo miliciano e está quase a completar o curso de piloto de helicópteros dado por instrutores franceses. É de Espinho e estava empregado num banco para onde entrou depois de ter feito o sétimo ano do liceu. Namora a Fernanda que partiu há pouco para Londres onde estuda e trabalha. Não anda sempre a falar na namorada para não dar parte de fraco mas já percebi muito bem que pensa mais na Fernanda do que em tudo o resto.

 

O Carlos Coutinho, foi furriel enfermeiro, com a especialidade de neuro-psiquiatria, quase três anos, em Moçambique donde regressou em Março de 1969. Assistiu impotente a crimes horríveis perpetrados pelo exército colonial e assistiu às mortes e às vidas estropiadas por feri­mentos sem remédio de muitos combatentes involuntários.

 

Por isso quer continuar a participar nesta guerra, em Portugal, mas do outro lado da guerra, do lado dos anticolonialistas e dos africanos, que lutam pela sua libertação. Libertação que, sob a lógica da guerra fria, dos interesses estrangeiros e das ambições pessoais de alguns dirigentes, deu lugar em Moçambique e mais ainda em Angola, a um novo e apocalíptico calvário para os respectivos povos.

Carlos é desde a acção do Cunene quase um veterano.

 

 

O Eusébio é o mais velho. Tem 28 anos e é de Mértola. Também esteve na acção do Cunene. Foi soldado de uma companhia de caçadores e conheceu Angola, o Ambriz, as Lundas e a natureza humana. No Homem preto e no Homem branco.

– Conheci o rosto humano e a fera, que há dentro de nós. Europeus ou africanos… Uma guerra suja – dizia ele dos quase três anos de uma guerra que durante muito tempo lhe perturbou a tranquilidade do sono quando voltou à construção civil. Eusébio está escondido em frente do hangar número 2 e vigia a sua entrada e os militares que se aproximem.

O Ângelo e o Coutinho continuam dentro do hangar. Em silêncio, cautelosamente, a colocar vinte cargas explosivas e incendiárias em vinte aviões e helicópteros. Chegaram aqui sem novidade e se Deus quiser e o plano se cumprir, hão-de sair como entraram, com o ar mais natural deste mundo mas....

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