ÍNDICE
Introdução 15
Capítulo I — A Sabotagem do Cunene 21
Carlos Coutinho 24
Gabriel Pedro 29
A captura do barco a remos 33
A Viagem 38
António Pedro Ferreira 40
A minagem do Cunene 42
Victor d’Almeida d’Eça 46
Observar o porto de Lisboa e imaginar o
socialismo 48
Plano alterado à última hora 49
O Cunene nos jornais 52
Capítulo II — Passar à clandestinidade
Junho de 1964 61
Os anos sessenta 73
Esperas 76
Começo difícil 77
Rogério de Carvalho 77
Despedidas 80
Capítulo III —
Três Acções simultâneas 85
Escola Técnica da PIDE/DGS 88
Cais da Fundição 91
Centro Cultural Americano 94
Capítulo IV — União Soviética e Cuba 99
Cunhal confunde Brejnev com o Sol da Terra 101
Francisco Miguel 105
Visitar Cuba de Cadillac 107
Condecorações: de Mikoyan a Gorbatchov 108
Capítulo V — ‑A sabotagem da Base Aérea de Tancos 111
Ângelo de Sousa 114
Jaime Serra 115
A chave falsa 120
Os roubos da gasolina 121
O Paiol Central 123
O plano avança 125
No Comando Central 127
O laboratório na Arruda 128
O Polícia ajuda-me nos explosivos 133
Interceptados pela Polícia de Choque 134
A Partida para Tancos 137
Os helicópteros ali mesmo à mão 141
Aproximam-se militares 143
Morrer de ansiedade em Santarém 145
O Relatório Oficial e… 147
… o nosso Comunicado 151
Sargento inocente preso e expulso das Forças
Armadas
152
A Televisão Sueca quer fazer um programa
.... 155
Capítulo VI — Prisões e Clandestinidade em auto-gestão
O Sr. Pires: uma cruz pior que a minha 164
Cassiano Bessa 166
Morais 168
Leonel 169
Mário Reis 170
A PIDE vai prender um clandestino da FAP
e... 171
A primeira «acção especial»…falhada 173
Os primeiros
passos e a vaga de prisões 178
Esconder um clandestino 179
Mário Lino 180
Ângelo Veloso 183
Pausa e curso no Konsomol 185
Capítulo VII —
O Corte das Telecomunicações 187
Conselho do Atlântico Norte 192
Alberto Serra 193
A Central de Telecomunicações 193
O Corte dos Cabos 195
Cortar ou não cortar a electricidade 200
Ramiro Morgado 203
Capítulo VIII
— Recomeçar 211
Falsa partida para as acções armadas 214
Segundo curso em Cuba totalmente perdido 214
Casa clandestina ao lado do chefe da PIDE 216
Casamento com boda 217
Trabalho de formiga 218
Cunhal manda formar «especialistas» na União
Soviética 220
Capítulo IX — Assalto ao Paiol 221
Manuel Policarpo Guerreiro 224
Amado Ventura da Silva 226
O Paiol 235
Capítulo X — Criar infra-estruturas 241
O Paiol Central 241
Galiza e Manuela 241
Nina e José Morais 243
A casa do Sobreiro 245
Capítulo XI — A sabotagem do Comiberlant 253
Observar o objectivo 256
Manuel Santos Guerreiro 258
O Grande Susto 262
Jorge Trigo de Sousa 264
A Operação 271
Capítulo XII —
Consolidar a organização 277
Almendra 277
De Vale de Lobos para Alcabideche 279
Organizar: um trabalho de filigrana 283
Capítulo XIII
— O Navio Muxima 285
Capítulo XIV —Últimos preparativos antes do início das
operações
Credencial para Carlos Coutinho 309
Vendíamos» comunismo, um produto perigosíssimo 312
A chegada de Jaime Serra 313
Capítulo XV — A Operação Curto Circuito 315
Do New York Times à Tabanca de Tassilina 317
Operação fracassada 319
Contra o Presidente fantoche 321
Mário Abrantes 324
Ângelo de Sousa volta à clandestinidade 332
Capítulo XVI —
A Grande Perseguição 337
A cabeça a prémio 339
Saber da morte do pai pelo jornal 341
«Mandato de busca e apreensão» a casa dos
meus pais 342
A minha mãe decide interpelar a PIDE 344
Ver o Comité Central 345
Romeu 346
De revolucionário a bufo 347
Véspera de prisões 349
Ordem de prisão 353
A PIDE
atrás do Eusébio 356
Prisão e… suicídio? 361
Encontro com Francisco Miguel 363
Paragem nas acções armadas 366
Epílogo
O 25 de Abril de 1974 371
Anexos
Organigrama da ARA 387
Notas biográficas 391
O contexto político da criação da ARA – Fita
do tempo 401
Dedicatória
Aos
meus companheiros da ARA e a todos os que, afrontando perseguições, prisão ou
a morte, combateram a ditadura fascista.
Introdução
No fim de 1964 parti para
Moscovo e depois para Havana, com o Rogério de Carvalho, para frequentar um
curso técnico-militar, na sequência da decisão do PCP de criar uma organização
para desencadear acções armadas contra o regime fascista português. Tinha-nos
sido atribuída a responsabilidade de dirigir o levantamento de tal organização
e no âmbito da nossa missão estivemos com Álvaro Cunhal na capital soviética
antes da nossa partida para Cuba.
Começou aqui um longo caminho, repleto de dificuldades
e perigos, que culminou com a criação da Acção Revolucionária Armada, a ARA,
cinco anos depois. Vagas de prisões atingiram ao longo dos anos militantes e
quadros do Partido Comunista Português que, por contágio, anularam mais que uma
vez muito do nosso trabalho. Das pessoas envolvidas desde início nesta
actividade apenas duas chegaram à fase operacional iniciada em 1970, António
Pedro Ferreira e eu. Os restantes ou foram presos, ou fugiram para o
estrangeiro ou tiveram de ser postos de lado pelo receio de terem sido
detectados pela PIDE. Outros houve ainda, que foram transferidos para as
organizações do partido, por não estarem no sítio certo, ou pura e simplesmente
desapareceram, assustados com os perigos.
A primeira vaga de prisões a criar-nos dificuldades
ocorreu logo nos finais de 1965 e levou
à cadeia o próprio Rogério de Carvalho. Eu escapei mas fiquei na
clandestinidade nove meses sem conseguir restabelecer ligação à direcção do
partido. Prossegui nesse período, com os poucos camaradas que restavam, o
trabalho para pôr de pé a nossa organização, mas os diminutos recursos
financeiros e o ambiente de pânico criado pela repressão tornaram-no muito
difícil. As prisões criaram tais dificuldades nas organizações do Partido
Comunista da região de Lisboa que após o restabelecimento dos meus contactos
com a sua direcção, através de Ângelo Veloso, esta considerou necessário suspender
o nosso trabalho durante algum tempo para que pudéssemos prosseguir em bases
conspirativas mais seguras.
Fui então frequentar um curso político em Moscovo, de
Outubro de 1966 a Junho de 1967 enquanto o PCP enviou a Cuba, para um segundo
curso, mais alguns quadros recrutados na emigração, com vistas a reforçar o
nosso trabalho no interior. Em Julho de 1967 retomei a actividade em Lisboa mas
dos esperados e tão necessários quadros, nenhum chegou ao “teatro de
operações”! Em 1968, com o fracasso na selecção de quadros do curso de sessenta
e sete, é dada preparação técnica, agora na União Soviética, a outro grupo de
quadros. Em Outubro de 1968, Francisco Miguel, um dos “alunos” do curso
soviético, regressa à clandestinidade em Portugal e constituiu comigo um organismo
de direcção, cuja ligação ao partido é assegurada por Joaquim Gomes, membro da
sua Comissão Executiva, o órgão máximo no interior do país.
Em Junho de 1970, num momento em que já tínhamos dado
passos decisivos nos recursos humanos e na criação de infra-estruturas
logísticas chegou Jaime Serra que, com Francisco Miguel e comigo constituiu o
comando central da ARA.
Os êxitos e os fracassos, que marcaram o percurso da
organização até Outubro de 1970 quando iniciou a sua actividade com a sabotagem
do navio Cunene fazem parte do conteúdo do livro. Ele mostrará que a ARA não é
o resultado da intervenção providencial de nenhum dos seus dirigentes que
chega, arregaça as mangas, cria a organização e desencadeia as acções armadas.
Ele revelará que a ARA foi o resultado de um longo e perseverante trabalho de
muitos homens e mulheres, que não se deixaram vencer pelas dificuldades nem
pelo medo, num ambiente de feroz repressão policial. Alguns deles, aliás, ao
serem presos, pagaram com torturas inauditas um elevado preço pela decisão de
enfrentar a ditadura.
Neste
livro deixo o testemunho de quem teve o privilégio, único, de participar na
criação da ARA, na sua direcção e orientação, desde o início até à sua
extinção, depois do 25 de Abril. Privilégio só possível por ter conseguido
escapar à prisão durante os dez anos que passei na clandestinidade. E isso
devo-o, em boa parte, àqueles que, como Rogério de Carvalho ou Ângelo Veloso,
preferiram sofrer torturas e arriscar a vida a denunciar os companheiros à PIDE.
Os
protagonistas da ARA, aqui evocados, tiveram evoluções políticas diferentes.
Uns continuam militantes ou dirigentes do PCP, com posicionamentos
eventualmente distintos relativamente às saídas do beco sem saída em que o
partido parece estar, outros entraram em ruptura com ele e afastaram-se. Tendo
abandonado o PCP libertei-me também do critério comunista de tirar ou meter no retrato da História, os actores
caídos em desgraça ou ungidos pela graça do chefe do momento. Por isso
procurei tratar todos por igual.
Seria
estulta e vã a pretensão de que estes ou quaisquer testemunhos sejam o retrato
fiel da realidade. No entanto procurei deixar com o máximo rigor que me foi
possível o registo das acções armadas, os factos, as datas, os locais. O que se
fez e como se fez. E também a identidade e o papel de quem nelas participou.
Como eu as vi! De acordo com o meu falível e subjectivo critério!!
Para
este trabalho foi muito importante o testemunho de um grande número de
protagonistas ou seus familiares a quem vivamente agradeço, como o de Amado
Ventura da Silva, António João Eusébio, António Lopes Ribeiro, António Pedro
Ferreira, Cassiano Bessa, Carlos Coutinho, Edmundo Pedro, filho do Gabriel
Pedro, falecido em 1972, de Fernanda Castro, mulher de Ângelo de Sousa, falecido
em 1990, de Margarida Correia, mulher de Victor d’ Almeida d’Eça, falecido em
1999, de Jorge Trigo de Sousa, José Morais, Maria José Chaves e Diogo Veloso,
respectivamente viuva e filho de Ângelo Veloso, Mário Lino, Mário Reis, Ramiro
Morgado, e de outros que preferiram permanecer no anonimato. Também foi de
grande valia o arquivo que guardo do período da clandestinidade, com recortes
dos jornais, os comunicados, as fotografias, os esquemas, os relatórios
técnicos, os materiais de agitação que fiz nos anos de clandestinidade.
Decisivas, nalguns pormenores, foram as notas que registei nos anos que se
seguiram à revolução, ainda sem um objectivo concreto, quando os contornos da
grande aventura da clandestinidade estavam mais vivos na minha memória. Também
me socorri dos arquivos da PIDE/DGS, na Torre do Tombo, para preencher lacunas
ou precisar contornos.
O recurso à luta armada, mesmo com amplitude e formas
restritas, era nos anos sessenta uma questão muito polémica no PCP. Por um lado
Moscovo era contrário ao envolvimento dos partidos comunistas, particularmente
na Europa, em lutas armadas. Ela poderia pôr em perigo o tácito entendimento
das duas superpotências sobre as suas esferas de influência estabelecidas na
conferência de Yalta quando estava à vista a vitória na 2ª Guerra Mundial. Por
isso também Cunhal que obteve plenos poderes da direcção do PCP para tratar
desta nova frente de luta no maior segredo, tratava a matéria de modo
cauteloso.
Apesar da importância atribuída à nova frente de luta a
linha estratégica para o derrubamento da ditadura continuava a ser a “luta de
massas”. Às “acções especiais”, à ARA, era dado apenas o papel de estimular e
potenciar aquela por isso os meios humanos e logísticos que o PCP lhe fornecia
eram limitados. Mas as limitações resultantes da orientação política global
eram agravadas pela “política de campanário” das organizações cujos
responsáveis sonegavam os bons quadros quando recebiam directivas para fornecer
alguns.
É a dupla condicionante da repressão policial e da
restrição de meios, que explica as vicissitudes da criação da ARA e revela a
muita perseverança que exigiu.
Apesar de grupos políticos radicais, particularmente
maoistas, colocarem o apelo à luta armada no centro da sua propaganda nas
décadas de sessenta e setenta a verdade é que isso nunca teve expressão prática
com excepção de algumas acções da LUAR e as acções das Brigadas Revolucionárias
que tiveram início um ano depois das da ARA. Isto revela como era fácil apelar
às armas e como era difícil pegar nelas. Revela também que só para o fim dos
anos sessenta e princípios de setenta estavam criadas condições favoráveis a
esta nova forma de luta. Para isso contribuiu decisivamente o prolongamento e
impasse da guerra colonial que agravou muito o isolamento do regime e permitiu
até a preparação militar e psicológica da “mão de obra” necessária para as
acções armadas.
O grande cisma no mundo comunista surgido no início da
década de sessenta quando a China decidiu disputar a liderança à União
Soviética fez surgir em todo o mundo dissidências nos partidos comunistas e
aparecer facções pró-Pequim, em luta aguda contra as que eram pró-Moscovo, cada
uma delas arrogando-se a posse exclusiva das tábuas da fé, o verdadeiro
marxismo-leninismo. Pequim advogava como caminho para a revolução, por todo o
lado, a luta armada e a guerrilha camponesa: “Que os campos cerquem as
cidades!” Como consequência surgiram em Portugal os vários comunismos M-L e a
pressão ideológica vinda destes e de outros sectores antifascistas no sentido
da luta armada.
Em 1961 com o inicio da guerra colonial e o
endurecimento da ditadura cresceu no PCP a corrente de opinião favorável à luta
armada que encontrou menos obstáculos com a nova orientação resultante da
retomada da direcção por Álvaro Cunhal após a fuga do Forte de Peniche, em
Janeiro de 1960. Na vigorosa luta pela reconquista da liderança Cunhal
causticou, no célebre documento “O Desvio de Direita” a anterior direcção e a
sua “via pacífica” para o derrubamento do fascismo e fez triunfar a via da
“insurreição popular armada”. Neste modelo imaginavam-se as coisas, na
essência, à moda da revolução soviética de 1917 e nele não entravam
obrigatoriamente as acções armadas do tipo das da ARA mas o novo quadro
conceptual deixava de as impedir.
É neste contexto que Rogério de Carvalho, então um
alto responsável do partido a controlar a organização de Lisboa do PCP e que,
como eu, compartilhava a corrente de opinião favorável às acções armadas, me
convidou e eu aceitei, em Junho de 1964, a passar à clandestinidade para com
ele dar início ao levantamento da organização das “acções especiais”.
Controlada politicamente pelo PCP, a ARA era autónoma
do ponto de vista orgânico e tanto quanto possível estanque da organização do
partido, para evitar que as prisões neste atingissem aquela.
A ARA não era uma organização terrorista. O terrorismo
conduziria, e justamente, a população a revoltar-se contra a ARA e não contra o
regime como pretendíamos. Só aprovávamos as acções armadas se houvesse a
garantia ou pelo menos uma grande probabilidade de não atingirem pessoas.
Com o fortalecimento paulatino da organização, em
quadros e infra-estruturas, constituiu-se em 1970, com Jaime Serra, Francisco
Miguel e comigo o Comando Central da ARA. Três anos depois, em Maio de 1973, a
ARA suspendeu a sua actividade destacando-se entre as suas acções armadas
algumas de grande envergadura e impacte político e militar, como a da Base
Aérea de Tancos, em 8 de Março de 1971 em que atingimos 28 aviões e
helicópteros dos quais 13 foram completamente destruídos.
Nos
anos sessenta o descontentamento com o regime de Salazar era tal que muitos
portugueses se dispuseram a arriscar a liberdade e a vida, para lutar pela
Liberdade. E muitos também na esperança de “alcançar o céu”, o fim da exploração
do Homem pelo Homem, uma Sociedade Nova, um Homem Novo!...
Independentemente do que cada um possa pensar da
democracia que os comunistas lhes reservariam se conquistassem o poder é
inegável que a ARA foi uma parcela da luta do Povo Português pela Liberdade que
a revolução de 25 de Abril de 1974 concretizou.
Lisboa, 27 de Julho de 2000
Raimundo
Narciso