JL JORNAL DE LETRAS, ARTES E IDEIAS
Secção IDEIAS, página 40. Texto
de Rodrigues da Silva, editor do JL
HISTÓRIA
Segredos da A. R. A.
Defeito ou virtude? Hesito. É que “ARA – Acção Revolucionária Armada. A história secreta do braço armado do PCP” (Dom Quixote, 406 páginas, 3500$00), o livro de Raimundo Narciso (RN), eu li-o como... um romance. Não era esta a intenção. A intenção era outra, e, mal o comprei fui-me a ele, armado daquilo de que Marguerite Yourcenar sempre se muniu no acto de ler: um lápis. Para sublinhar. O que amiúde mais me acontece num ensaio ou na poesia do que num romance. Para, não raro, concluir que quão mais sublinhado fica um livro, tão melhor ele é (ou eu o achei). No caso do de RN, porém, sucedeu algo de inédito. No final está sublinhado como se fora o que, em rigor, não é: uma obra de ficção. Defeito, pois, ou virtude?
Virtude – assumo. E virtude porque o pouco
sublinhado da minha leitura deve-se ao estilo que RN imprimiu à sua obra. Mais
do que um relatório, a vida. Isso mesmo: a vida. E, ao escrever isto, descubro
(só agora) que a narrativa do livro fluiu a um ritmo algo cinematográfico.
Porque, se por um lado há uma descrição pormenorizada e exaustiva de todas as
acções da ARA, com a relação dos seus comos, quês e porquês, por outro não
deixa de haver – sempre – o traço humano, o ser e estar pessoal e anímico dos
protagonistas, o alvoroço de sentimentos. Mais: recorrendo ao “flash back”, RN
subverte até, de quando em vez, a ordem cronológica da narrativa para, após
dizer da acção, dizer de como era este ou aquele que a executaram.
O resultado é fascinante. Porque, para
além da História, temos as histórias. E é, decerto, porque temos as histórias
que a História adquire aqui tudo menos um tom épico. Podemos (e talvez devamos)
classificar muitos destes protagonistas como heróis da resistência ao fascismo.
Mas um herói é sempre um ser distante. O bronze que o embalsama afasta-o de
nós, seres comuns. RN tem o extraordinário mérito de, narrando acções heróicas,
aproximar de nós os seus executantes. Que nos surgem de carne e osso, não
robots, clonados por uma ideologia. São homens e mulheres de corpo e espírito,
múltiplas vezes plenos de dúvidas. Mas que, mesmo assim, face a uma situação
concreta, optam. Apesar do medo, do medo de falharem, de serem presos, de serem
torturados, de passarem anos sem ver os pais, as mulheres (ou os maridos) e os
filhos, os seres amados; e há imenso amor nas entrelinhas deste livro.
Livro que RN imbui de um humanismo que só valoriza o retrato pelo menos
dos principais membros da organização, como ele próprio, um dos seus dirigentes
de topo. E o único que nela esteve da sua origem até ao fim. E sempre presente
e activo, logrando passar dez anos na clandestinidade com a mulher (e às tantas
com os filhos também), sem nunca ser apanhado pela PIDE. Pormenor que ele nem
realça, preferindo revelar a sorte (mas a sorte merece-se) a que deveu o feito.
E revelando também quanto as
acções da ARA deveram à
estratégia de um partido.
Braço armado do PCP (de que RN era
militante, sê-lo-ia até 90, integrando o comité central de 72 a 82), a ARA
tinha, no entanto, uma grande autonomia. Digamos que onde o PCP era sobretudo
ideologia, a ARA era sobretudo acção – armada. Os actos de sabotagem que
praticou não tinham, contudo, a ilusão de derrubar o regime, tão só (e já não
era pouco) de o desgastar. Menos pela sabotagem em si do que pela agit-prop
consequente. Mas a ideologia estava subjacente. Uma ideologia que RN agora
(filiado no PS, depois de, entre 95 e 99, ter sido seu deputado independente)
está longe de subscrever. O que não esconde, antes acentua. Sem jamais oferecer
a imagem de um arrependido. Bem pelo contrário. Não o explicitando, RN
orgulha-se – hoje – do que fez então. E é sem dúvida este assumir histórico que
contribui para que o seu livro “respire” autenticidade por todos os poros. E
respire também, aqui e ali, aquilo que é sempre mais difícil de conseguir em
História: o espírito do tempo. Sobretudo quando passa célere e a memória se
esfuma.
RN não o ignora. De tal modo que, a págs. 307 (afinal sempre sublinhei alguma coisa), escreveu assim: “Quem não viveu esses tempos de medo, de pobreza, de exploração, arbítrio e mesquinhez não consegue avaliar! E sem saber isto pode até pensar que as pessoas que iam para a clandestinidade eram heróis, loucos ou mártires quando na realidade eram pessoas como as outras. Talvez mais informadas, mais indignadas ou mais trituradas pela engrenagem”.
Pessoas que, no final, reencontramos numa
espécie de dicionário biográfico. Ilustrado com as fotos de cada uma. E são
como nós. Elas a quem – pelo que foram, pelo que fizeram, pelo que arriscaram,
independentemente do seu percurso posterior – devemos hoje alguma da liberdade
que fruímos.
Rodrigues da Silva