A
contracapa contém o texto que se segue:
A ARA foi uma organização
criada pelo PCP para a luta armada contra a ditadura fascista. Activa entre 1970
e 73, realizou acções armadas com grande impacto político, algumas tão
espectaculares como a do comando que penetrou na Base Aérea 3, em Tancos, em
1971 e destruiu ou danificou 28 aviões e helicópteros.
Este livro é a narrativa ao
vivo, de cada uma das acções da ARA, do secreto e tormentoso processo da sua
criação, da furiosa perseguição desencadeada pela PIDE e também de como um
clandestino viveu os últimos dias da ditadura e se deslumbrou com essa
inolvidável explosão de alegria de um Povo que foi o 25 de Abril de 1974.
Não é um ensaio político
nem uma enumeração de factos. É o registo – por quem a viveu – da luta
abnegada, das aventuras, medos, raivas, coragens de homens e mulheres com nome
e rosto, quase todos ainda vivos, e que andam por aí, na labuta do dia a dia,
iguais a todos os outros, iguais a todos nós.
«Quem não viveu aqueles
tempos... aqueles tempos de PIDE, de Tarrafal, de Legião, de Mocidade
Portuguesa, de saudação fascista, de braço no ar, do Cardeal Cerejeira a
abençoar Salazar, de Censura, de exílio, de sindicatos proibidos, de exploração
desmedida, de perda do emprego por razões políticas, de banimento da função
pública, da Universidade... Tempos em que uma telefonista não podia casar para
não prejudicar o trabalho ou se casasse perdia o emprego; em que um oficial das
forças armadas só podia casar com uma mulher que os superiores considerassem
digna da sua classe. Tempos em que as mulheres não podiam votar nas eleições
fantoches e o chefe de família era o dono da mulher e dono dos filhos. Quem não
viveu esses tempos de medo, de pobreza, exploração, arbítrio e mesquinhez não
consegue avaliar! E sem saber isto, pode até pensar que as pessoas que iam para
a clandestinidade eram heróis, loucos ou mártires quando na realidade eram pessoas
como as outras. Talvez mais informadas, mais indignadas ou mais trituradas pela
engrenagem.»
Badana da capa
Badana
da capa é a parte desta dobrada para dentro e que neste livro contém fotografia
do autor e o texto seguinte:
Raimundo Narciso nasceu em Torres Vedras, em 1938. e passou a
infância no Vilar, uma aldeia ao norte de Lisboa, nFez os estudos secundários
em Lisboa e Torres Vedras e ingressou no Instituto Superior Técnico, em Lisboa,
em 1956. até ao 4º ano, alternando os estudos com quase
quatro anos de Serviço Militar Obrigatório.
A intervenção cívica e política que desenvolveu
desde 1956 o ingresso na Universidade, em 1956, em
Lisboa, obrigou-o,
nas condições da repressão política de então, a viver na clandestinidade, em
Portugal, de 1964 dez anos, até ao derrubamento do
fascismo em 25
de Abril de 1974,
quase sempre em Portugal.
Teve um papel central na criação e na direcção da
Acção Revolucionária Armada e . Ffoi membro do
Comité Central do Partido Comunista Português de 1972 a 1988, tendo-se afastado
deste partido no âmbito de um processo político e ideológico que
teve início em 1987 e grande repercussão pública.
Em 1992, foi um dos fundadores do movimento político “Plataforma de
Esquerda” e foi deputado independente nas listas do Partido Socialista, de 1995
a 1999, altura em que aderiu a este partido.
Raimundo Narciso é casado, tem uma filha e um filho, nascidos
ainda na clandestinidade e desde 1989 exerce a profissão de gestor de empresas.
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Postal-Convite
da Editorial D. Quixote
Próxima acção: Salão Nobre do Palácio
Galveias, Terça-feira, 5 de
Dezembro, seis da tarde O Comando será
constituído por João Soares, José Barros Moura, Nelson de Matos e Raimundo
Narciso
18.00h.
Frente Verso
Lisboa, Palácio
Galveias, 5 de Dezembro de 2000.
A apresentação pública do livro decorreu no Palácio Galveias, no
Campo Pequeno, em Lisboa, no dia 5 de Dezembro de 2000 e na mesa encontravam-se
(da
esquerda para a direita na fotografia) Nelson de Matos, Director da Editorial
D. Quixote, José Barros Moura, deputado, (a apresentar o livro), Raimundo Narciso, autor, João Soares, Presidente da Câmara
Municipal de Lisboa e anfitrião.
José Barros Moura
O
livro de Raimundo Narciso, ARA – Acção Revolucionária Armada: A História Secreta do Braço Armado do PCP, não
é um livro de teoria política, nem um ensaio histórico, nem um romance, nem um
livro de memórias. Mas é um pouco de tudo isto ao mesmo tempo, e nessa característica
reside muito do seu mérito.
A sua estrutura
baseia-se no relato das acções operacionais da ARA, realizadas entre Outubro de
1970 e Agosto de 1972, apresentadas por ordem cronológica : navio Cunene; Escola
Técnica da PIDE; carregamento de armas para a guerra colonial no Cais da
Fundição; Centro Cultural Americano; Base Aérea de Tancos; corte de
comunicações e de electricidade ao
Conselho do Atlântico Norte; Comiberlant; navio Muxima; Operação Curto Circuito,
de corte de energia eléctrica em vários pontos do país, para boicotar a última posse de Américo Tomás. Além dessas,
caracterizadas por uma impressionante eficácia, uma operação falhada - aquela
que deveria ter sido a primeira - curiosamente também contra instalações da
NATO.
Esta narrativa
emocionante é entremeada, nos capítulos pares, pela história da difícil criação
de condições, entre Junho de 1964 e Setembro de 1970 (!), para que a ARA viesse
a realizar a sua missão revolucionária: desde a decisão tomada pela direcção do
PCP de incluir na acção política dirigida ou coordenada pelo partido as acções
armadas ou “especiais” contra o regime fascista e colonialista, até à selecção,
recrutamento, organização, formação e logística dos quadros, passando pela
obtenção e guarda dos meios materiais e técnicos (avulta aqui um corajoso e bem
sucedido assalto a um paiol civil de explosivos, e a descrição das
infra-estruturas logísticas da organização).
O último capítulo relata
a “grande perseguição” da PIDE/DGS, com base em denúncias (porque só assim ela
conseguia sucessos), de que resultaria a prisão de seis importantes e
experientes operacionais em 1973/74. Por razões políticas, associadas ao
desenvolvimento da acção política “de massas” (como se dizia), ao isolamento do
regime e ao alargamento da frente antifascista a novos sectores, mas também por
causa da repressão, a ARA (isto é, seguramente, a direcção do PCP) decide e
anuncia em Maio de 1973 uma “pausa temporária de certas acções”.
Será o fim de todas as
acções armadas da ARA já que, entretanto, sobreveio o 25 de Abril a cuja
descrição, na perspectiva do militante comunista clandestino, é dedicado um
Epílogo emocionado que contém também uma reflexão política sobre o modo como a
realidade desmentiu a previsão teórica do PCP sobre o derrubamento da ditadura
fascista e sobre o
contributo da ARA para a luta do Povo Português que com duziu à instauração do
regime democrá tico.
Ao longo de todos os
capítulos, e à medi da que intervém nos acontecimentos são-nos dadas eficazes
apontamentos biográficos e/ou registos de impressões pessoais sobre as pessoas
de carne e osso que, com tantos riscos, provações e engenho se lançaram nesta
aventura humana e conseguiram pôr em prática tão importantes acções de guerrilha
civil contra a ditadura fascista. Num anexo são publicadas as notas biográficas
e fotografias da maior parte dos heróis e heroínas desta história. Um pequeno
número não autorizou a identificação, sendo por isso utilizado pseudónimo; e
faltam algumas fotografias de pessoas identificadas, nalguns casos, como deve
ser o de Jaime Serra, por não terem querido fornecer uma foto actualizada.
Há figuras centrais,
pelo papel que tiveram nos acontecimentos e pela consideração que o narrador
tem por elas. Mas todas são referidas com o que parece ser um enorme escrúpulo
de não minimizar o papel de ninguém e com um grande respeito humano. É ainda
publicado o Organigrama da ARA e uma listagem das operações com a indicação
minuciosa do papel de cada um: direcção da execução, execução, apoio à acção,
reconhecimento. E feita uma referência ao papel das mulheres que intervieram em
actividades de apoio e na preparação de acções armadas, em tarefas técnicas e
nos reconhecimentos (aqui até uma criança acompanhou várias vezes os pais,
enquanto uma outra seria envolvida na prisão dos pais pela PIDE).
Raimundo Narciso não se
coloca a si próprio no centro dos acontecimentos. Leva a sua modéstia ao ponto
de se incluir sempre numa ordem hierárquica (ele era só o número três do
“Comando Central”...) mesmo quando se pode imaginar que o principal papel foi o
seu. Num certo momento, quando se dirige para o apartamento que albergava
Ângelo de Sousa, supondo que a PIDE já o tivesse sob vigilância e assumindo por
isso um alto risco, Raimundo admite não ter questionado a ordem de Jaime Serra
no sentido de ser ele a executar a "tarefa" pelas mesmas razões que
legitimavam as ordens que ele próprio dava aos operacionais. Sem prejuízo da
modéstia, não esconde o seu orgulho pelas proezas tecnológicas que, com meios
artesanais, conseguiu realizar usando relógios de contrabando, pilhas secas e
complicados circuitos eléctricos…
Eis um grande mérito do
livro: dar nomes e existência concreta aos militantes revolucionários. Fazer
uma história de pessoas e não só de entidades colectivas e abstractas: o
partido, a classe, o povo, etc. Por em evidência o indivíduo face ao colectivo.
É importante que os nomes de quem lutou desinteressadamente pela liberdade do
seu país passem a ser conhecidos de todos. Vale isso mais do que as
condecorações a pataco.
Não é também uma
história sectária: apesar da conhecida ruptura de Raimundo Narciso com o PCP,
ninguém é excluído, não é minimizado ou deturpado o papel de ninguém, muito
menos do próprio partido que teve o mérito de criar e dirigir a organização que
concretizou e realizou algumas das mais importantes acções revolucionárias
armadas contra o regime fascista. Acções que, ao contrário de algumas dos
anarquistas (como o atentado contra Salazar) nunca visaram pessoas, embora
tivessem feito uma vítima inocente e, por isso, cumpriram melhor a função de
encorajar a luta em todas as frentes contra o regime fascista.
Aliás, é curioso ver
como, em várias oportunidades, a prática da ARA é posta em contraste com o
verbalismo revolucionário doutras correntes e organizações, que criticavam o
PCP por contrariar a luta armada, mas... que nunca quiseram fazer as despesas (e o livro mostra como eram elevadas!) de passar à acção. É o caso dos maoistas, um
dos quais entra na ARA julgando tratar-se de uma organização “m-l”, só
reparando no engano (auto-induzido pela referência às acções armadas que seria
suposto serem um exclusivo dos "verdadeiros" comunistas e não dos
"social-fascistas") quando Francisco Miguel lhe fala ... de Moscovo.
Como se sabe, além da ARA, só a LUAR e as Brigadas Revolucionárias passaram à
prática.
Neste contexto é também
muito interessante verificar que, mais do que uma ideologia comum, o que juntou
à organização um bom número de operacionais foi o desejo de passar à acção
directa por parte de militantes com preparação e experiência militar na guerra
colonial. É curioso que, em vários casos haja mesmo uma certa incredulidade
sobre a real disposição do partido de finalmente passar à acção armada que se
converte em entusiasmo quando as pessoas verificam que daquela vez era a sério…
Embora nem todos tenham
querido figurar, Raimundo Narciso não tira ninguém da fotografia, ao contrário
de conhecidas práticas históricas...
Numa entrevista ao DN
diz Raimundo Narciso que não quis apenas relatar os factos de que teve
conhecimento e que muito interessam para fazer a história da luta política
contra o fascismo. Se fosse só isso, atendendo à falta de testemunhos directos
de muitos acontecimentos, e à ausência de uma arreigada tradição memorialística
no nosso país, já seria grande o mérito do livro que agora vos apresento.
Mas Raimundo quis também
“juntar sentimentos, medos, coragens, raivas, amores, aventuras”. Tal como as
viu. Em geral, consegue bem o seu objectivo. Dá-nos uma espécie de romance de
factos reais, mas tão difíceis, tão aventurosos e perigosos, exigindo, além da
competência quase profissional, efectiva coragem física e moral e sentimentos
elevados de dedicação a causas nobres (como a luta pela liberdade ou pelo que
se julgava ser o socialismo) que chegam a parecer ficção… Julgo que poderia
haver matéria para mais do que um filme interessante. Ao mesmo tempo, os heróis
são de carne e osso. Têm medo. Têm amores. "Casam" perante um
"celebrante" como Ângelo Veloso . Têm filhos. Frustrações por não
terem vida pessoal. Pena da vida livre que deixaram, de não poderem continuar
uma prática cultural que lhes interessava. Falam dos anos 60 que continuavam exaltantes
à margem da dureza estreita das suas vidas. Recordam a lassidão agradável no
dia seguinte a uma acção bem sucedida…
Um dos momentos mais
impressionantes, pelo seu significado político e pela dignidade da experiência
pessoal relatada é o da decisão de passar à clandestinidade. Raimundo aceita,
sem rodeios, o convite depois de uma primeira recusa terminante. Explica como
estava consciente da gravidade do que solitariamente decidira, sabendo bem que
iria romper com muitas das coisas de que mais gostava. Compara mesmo tal passo
ao ingresso numa ordem religiosa (quando relata que uma das suas poucas
despedidas foi a uma tia freira de clausura). O passo é tão grave que, numa
entrevista, Raimundo explica que não sabe o que faria se tivesse sido preso (embora
se tivesse preparado para não falar) e noutra admite que “chegaram ao fim os
melhores ou os que tiveram a sorte de não terem sido presos”. O que o leva a
violentar-se desse modo? Raimundo explica que aceita passar à clandestinidade
por lhe ter sido garantido que, finalmente, o partido iria passar às “acções
especiais”, sendo-lhe destinado um papel na direcção dessa “frente de
trabalho”.
Entre a aceitação do
convite (Junho de 64) e a primeira acção da ARA (Outubro de 1970) decorre um
longo período que não se explica só pela necessidade de frequentar cursos de
formação na URSS e em Cuba (visitas de que nos conta algumas impressões
interessantes), nem apenas pela vaga de prisões que deixa Raimundo (e outros) “em autogestão” durante a maior parte
do ano de 1966), nem pelo fracasso de uma primeira acção , provavelmente porque
o “operacional” destacado teve medo e nunca mais apareceu até à data.
A lentidão na passagem à
prática das acções armadas deve-se fundamentalmente a problemas políticos
ligados à orientação (vinculada à política de blocos, apesar do fim do chamado
“desvio de direita”) do PCP de que Raimundo nos dá a sua interpretação baseada
no conhecimento directo dos factos. Só com a responsabilização de um dirigente
com a estatura e perfil de Jaime Serra – pensa Raimundo – foi possível ganhar a
autoridade política necessária para vencer todas as resistências da direcção e
da organização do partido ao lançamento de acções armadas.
Raimundo Narciso passou
10 anos de vida na clandestinidade. Quando o 25 de Abril chegou compreende que
tinha sido desmentida pelo critério da prática a “via” preconizada pelo PCP
para o derrubamento da ditadura fascista: foi um golpe militar e não o famoso
“levantamento nacional” teorizado por Álvaro Cunhal no Rumo à Vitória! Mas
Raimundo Narciso considera o 25 de Abril um dos dias mais felizes de toda a sua
vida.
Anos depois, sendo ele
funcionário e membro do CC do PCP, vem a compreender, quando Gorbatchov
“destapa a panela”, que o comunismo não é reformável e que, se tivesse vencido
em Portugal, teria conduzido aos mesmos resultados catastróficos e à mesma
negação das liberdades fundamentais e da dignidade humana que se verificaram em
todos os países do chamado “socialismo real”. Mas não considera que a sua vida
de revolucionário tenha sido em vão! Porque a sua acção, como a da ARA,
contribuiu para criar as condições para o derrubamento do fascismo e para a
instauração de um regime democrático – o único quadro possível e legítimo para
a esquerda na qual continua a militar.
A sua luta e dos seus
camaradas da ARA e do PCP não foi em vão.
É com grande satisfação,
e com orgulho de ser seu amigo e camarada, que constato hoje que ele não apenas
fez frente ao fascismo naquelas terríveis condições que descreve no livro. Também
não o vergaram as atitudes que, por parte de alguns antigos camaradas seus de
tantas lutas e perigos, visavam, em nome da defesa do poder partidário e da
recusa de abrir os olhos para a realidade, condená-lo à abjecção moral e à
morte cívica e política. Não se vence assim quem foi capaz de fazer o que ele
fez na, e pela, ARA. E quem foi capaz de a contar desta forma admirável e
digna.
Lisboa, 5 de Dezembro de
2000
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